Do outro lado do rio – parte 2: Projetos abandonados, canalizações e retificações dos rios de São Paulo

Imagem Você pode não notar, mas São Paulo é uma cidade repleta de rios. Por baixo de avenidas congestionadas, que, feriado após feriado, quebram recordes de trânsito, correm córregos e rios. Eles foram canalizados e aterrados para dar lugar a avenidas, símbolo do progresso da cidade.

Na segunda parte da série “Do outro lado do rio”, contamos a história e os detalhes dos projetos para recuperar os rios de São Paulo. Entre o contexto e a história, há muito o que aprender para o futuro – assunto para o próximo capítulo. Caso não tenha visto, confira a primeira parte da série.

A cidade, que começou numa colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, precisava de espaço no final do século XIX. Ela havia se tornado ponto de confluência de várias ferrovias que levavam o café do interior do estado para o Porto de Santos e teve seu crescimento impulsionado a partir da década de 1870. Por mais que a cidade precisasse de espaço para crescer e, para isso, fosse necessário alterar sua geografia, nem todos os projetos incluíam esconder e isolar os rios. São Paulo poderia ter parques lineares nas margens dos rios, lagos artificiais para prática desportiva e linhas de bonde no lugar das avenidas marginais.

O rio que foge do mar

O rio Tietê, o principal desses rios, é um tanto incomum — e não estamos falando do mau cheiro e aparência ruim, causadas pela poluição. Ele nasce em Salesópolis (SP), a 96km da capital e 22km do Oceano Atlântico. As escarpas da Serra do Mar, porém, fazem com que as águas não sigam o caminho mais óbvio, que seria correr para o mar. Ao invés disso, o rio segue continente adentro até desembocar no rio Paraná, a mais de mil quilômetros de distância. No caminho, ele cruza a cidade de São Paulo. Antes de sua retificação, o Tietê era um rio típico de planícies: meândrico, cheio de curvas, de baixa declividade. O leito menor, espaço ocupado na seca, não tinha mais que 60 metros de largura, mas o leito maior, na época das chuvas, chegava a 1km. E, depois da cheia, ele não voltava a ser o mesmo: seu curso mudava depois das cheias. Imagem Aí morava o problema: a inundação natural das várzeas trazia doenças para a população pobre que vivia perto do rio. Entre os anos de 1875 e 1918, a cidade enfrentou surtos de varíola, morfeia, febre amarela, tifo, gripe espanhola e peste bubônica. A questão sanitária estava, portanto, no centro do debate público. Por muito tempo, o rio Tietê foi o limite norte da cidade. Nos anos 20, a ocupação urbana para além do rio se resumia ao que seria, futuramente, o bairro de Santana. A cidade precisaria cruzar o rio para continuar crescendo.

A solução: enfrentar o rio

A criação da Comissão de Saneamento do Estado, por um decreto do Governo Estadual de 30 de abril de 1892, era uma resposta a isso. As primeiras obras foram a abertura dos canais de Osasco, do Anastácio e de Inhaúma. De acordo com a tese de doutorado Os meandros dos rios nos meandros do poder, da professora Odette Carvalho de Lima Seabra, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP,

“vê-se que a questão naquela época era prioritariamente a de aumentar a capacidade de escoamento do Tietê, e com isso diminuir o volume de água que ficava retido nas várzeas. (…) Estas obras, os demais estudos e mesmo o projeto de retificação que começaria a ser pensado na CSE, justificavam-se como parte de uma política mais global voltada ao saneamento da cidade e a princípio esses objetivos formais eram reais. Tanto que essas obras não se restringiram às áreas próximas da cidade, concretizavam estratégias mais amplas. Não se tratava ainda de liberar as terras da várzea.”

Apesar das obras e do projeto apresentado em 1894 pelo engenheiro João Pereira Ferraz, a Comissão foi extinta em 1898 e os trabalhos em andamento foram interrompidos. O motivo? Dinheiro — ou melhor: falta de dinheiro. Todos os estudos sobre o comportamento do rio acabaram abandonados. Um novo projeto de retificação só seria apresentado em 1913, pelo engenheiro Osvaldo Pacheco e Silva. Ele previa a desobstrução do leito do rio, retificação das grandes curvas e balizamento do canal e uma linha de bonde na margem esquerda do rio, além da construção de um cais com eclusa entre a Ponte Grande (que existia no lugar da atual Ponte das Bandeiras) e a foz do Tamanduateí e um parque margeando neste trecho. Em 1922, o engenheiro José Antônio da Fonseca Rodrigues, professor da Escola Politécnica, foi chamado pela Diretoria de Obras Municipais para avaliar três projetos enviados pelo governo ao órgão. Ele apresentou um anteprojeto de retificação do rio, baseado em estudos elaborados pela antiga Comissão. Imagem A intenção era um criar um canal retilíneo para aumentar a velocidade das águas, além de dois diques laterais de 4,5 metros de altura. Fonseca Rodrigues também menciona dois lagos artificiais, que seriam utilizados para remo e natação, construídos a partir da retirada de terra para construção dos diques. Nas margens, haveria duas avenidas de 20 metros de largura. O projeto foi duramente criticado por Victor da Silva Freire, diretor da repartição. Ele alegava que a retificação criava um “chatíssimo e monótono estirão”: na sua opinião, seria melhor manter “a aparência de um curso de água natural”. Imagem O engenheiro da Diretoria de Obras Municipais João Florence de Ulhôa Cintra formula, então, uma contraproposta com um percurso mais sinuoso para o rio e diques mais baixos. Também havia vias arborizadas e uma faixa de parques. A largura da área de intervenção era de 400 metros.

O melhor projeto e a oportunidade perdida

Em 1923, foi criada por uma lei municipal a Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê. O engenheiro sanitarista Francisco Rodrigues Saturnino de Brito, responsável pelo projeto dos canais de Santos no começo do século XX, recebeu a tarefa de desenvolver mais um projeto para o rio. Dois anos depois, Saturnino publica um longo relatório detalhando o que é, para muitos urbanistas, o estado da arte entre os projetos para o Rio Tietê. Nas palavras da professora Odette Carvalho de Lima Seabra

“Trata-se de um projeto que previu a regularização do rio acompanhando seu curso original, do aterro das várzeas a construção de dois lagos na Ponte Grande. (…) O traçado proposto seguiria pelos trechos já retificados do Canal do Inhaúma e do Canal do Anastácio” Imagem

O comprimento do rio perderia 20 km. Além dos dois lagos, a proposta de Saturnino descartava os diques, optando por canais de dois tipos que dariam conta de escoar as águas. Também seria construída uma represa em Mogi das Cruzes para regularizar o escoamento, além de outras menores nos afluentes, além de quatro eclusas para facilitar a navegação. O projeto incluía até mesmo uma ilha nas imediações da Ponte Grande, sem contar um parque linear nas várzeas do rio. O belo projeto de Saturnino de Brito, no entanto, não se tornou realidade. A ele, seguiram-se mais estudos de Ulhôa Cintra. Um deles foi o Plano de Avenidas, feito em parceira com o engenheiro Francisco Prestes Maia, chefe da Secretaria de Viação e Obras Públicas da Prefeitura de São Paulo de 1926 e 1930. Prestes Maia seria ainda nomeado prefeito da cidade pelo interventor Adhemar de Barros em 1938. As obras de retificação começaram na década de 1940, baseadas num projeto de Cintra de 1937. A expansão urbana desenfreada e a posterior decisão de lançar esgoto diretamente no rio, sem qualquer tipo de tratamento, levou a uma situação de poluição. Ela, no entanto, não é o único problema: já nos anos 60, antes mesmo da conclusão das obras, as inundações se tornaram um grande problema, que permanece até hoje.

Os outros rios

O Tietê não foi o primeiro nem o último rio a sofrer intervenções. O Tamanduateí foi canalizado em 1912, para escoar o esgoto dos bairros vizinhos. Já o Pinheiros teve seu curso retificado e seu sentido invertido pela Light: uma comporta e duas usinas de elevação fazem as águas irem do Tietê para a represa Billings, de onde elas seguem para uma queda de 720m, aproveitando o desnível da Serra do Mar, e terminam nas turbinas da Usina Hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão — o que, na avaliação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, é um desperdício. “É uma infâmia. A graça do quilowatt é você beber a água depois. Se você joga no mar, não há dinheiro que pague esse quilowatt.” Além deles, muitos outros rios e córregos foram canalizados. O projeto Rios e Ruas, uma iniciativa do geólogo Luiz de Campos Jr., da designer Juliana Gatti e do arquiteto e urbanista José Bueno, mapeia os cursos d’água que correm por baixo da metrópole. Há casos curiosos, como o Saracura, que nasce a poucos metros da Avenida Paulista e segue por baixo da Avenida Nove de Julho até Ribeirão do Anhangabaú, que, por sua vez, segue para o Rio Tamanduateí. Com a canalização de rios e córregos, a velocidade do escoamento aumentou consideravelmente, e as estruturas criadas passaram a não dar conta do volume de águas na época das cheias. O cenário se completa com o esgoto sem tratamento lançado diretamente nos rios. Poluição e enchentes se tornaram, então, os novos problemas da cidade e seus rios.


Créditos das imagens: Fotos dos rios: site do DAEE / Figura 1: Lysandro Pereira da Silva — “Relatório – Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê” / Figura 2: Victor da Silva Freire — “A Canalização do Rio Tietê no território da Capital e municípios adjacentes” / Figura 3: Francisco Rodrigues Saturnino de Brito — “Obras completas de Saturnino de Brito, v. XIX” Por: Giovanni Santa Rosa Republicado de: Gizmodo Brasil

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